Notícia Postada em 03/03/2010 - 19:15
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As estatísticas da Fundação Perseu Abramo que revelam que, a cada 15 segundos, uma mulher é vítima de violência no Brasil, praticada por alguém do sexo oposto, em sua grande maioria, muito próximo, que convive no mesmo ambiente e que desenvolve relação afetiva com a vítima.
A cantora V.A.S. é mais uma personagem desses números. Ela conta que, quando começou a se envolver com seu companheiro, nunca poderia imaginar que tudo terminasse da forma como aconteceu. “Ele ganhava não só a minha confiança, mas a de todo mundo ao redor. Ele era policial militar e eu me sentia segura”, relembra.
Como o companheiro de V. A. S. fazia alguns biscates como segurança, a cantora resolveu contratá-lo para exercer esta função em alguns shows em que ela se apresentava. “Com o tempo, ele começou a querer ser dono da minha vida não apenas enquanto mulher, mas também como profissional. Ele passou a agenciar meus shows e queria ser o dono da situação”, relata. Segundo ela, os problemas se potencializaram quando as agressões deixaram de ser apenas verbais e se tornaram físicas também. Além disso, as agressões não atingiam apenas a ela, mas a seu filho de 5 anos, fruto de um relacionamento anterior.
A cantora se lembra de um dos episódios que a fizeram tomar a decisão de denunciar o companheiro. V.A.S. estava em casa e o policial militar insistia para que ela fizesse um show em um determinado lugar. Contudo, de acordo com ela, além dele a estar forçando a fazer algo contra sua vontade, o tipo de música proposta pelo show não estava compatível com o que costumava cantar em seus trabalhos. “Ele queria que eu fosse de qualquer jeito. Foi quando me agrediu de tal forma que eu desmaiei. Ele me estrangulou e me bateu na frente do meu filho. Quando meu filho apareceu, ele disse: ‘eu estou batendo nela, porque ela usa droga, por isso é que ela está apanhando’”, conta.
Depois de muito procurar apoio, tomou conhecimento da 1ª Vara Especializada de Atendimento à Mulher de Salvador, local para o qual se dirigiu e obteve acolhimento. “Denunciei-o, a defensora pública entrou com a medida protetiva, mas ele descumpriu. Voltou a me ameaçar e me colocou pra fora de casa com meu filho só com a roupa do corpo. E ele disse que não tinha medo de ser pego. Há dois meses, seu ex-companheiro está preso, por não ter cumprido a medida de afastamento.
Quando a família entra em jogo
A técnica administrativa, L.A.B., também passou por problemas como o da cantora V.A.S. e conseguiu auxílio na Vara. Ela foi vítima do homem com quem foi casada durante 14 anos. Sofreu diversos tipos de violência como ameaças, destratos verbais e atentados contra sua vida. Depois de passar por momentos muito complicados, recebeu o conselho de procurar a Vara, onde encontrou apoio da Defensoria Pública, da equipe multidisciplinar e da juíza. A Defensoria ingressou com a medida protetiva de afastamento do agressor e, assim, L.A.B. obteve um pouco mais de tranquilidade em sua vida com o distanciamento do companheiro.
Denunciar o agressor foi um momento delicado na sua trajetória de L.A.B. em grande parte por conta dos dois filhos, frutos deste relacionamento. “As pessoas me diziam que não era para eu fazer exame de delito e denunciá-lo por causa da família e de meus filhos”, afirma a técnica administrativa. No entanto, como a situação se agravou, ao longo do tempo, foi inevitável a procura por ajuda. “Continuei procurando ajuda, mas ainda assim, nada foi feito. Eu vi a hora de cometer o suicídio, porque eu já não aguentava mais a violência”, lembra.
Quando é preciso pedir ajuda
De acordo com Cristina Ulm, defensora pública que atua na 1ª Vara Especializada de Atendimento à Mulher de Salvador, muitas pessoas pensam que violência doméstica e familiar é apenas física, entretanto compreende outros tipos, dentre elas a patrimonial, a sexual, a moral e a psicológica. “Não precisa esperar que o marido agrida para se tomar uma providência. Muitas vezes, tudo se inicia com a violência moral, depois passa para a psicológica e por último, culmina na física”, esclarece a defensora pública.
Conforme a defensora, no primeiro ano de atendimento, somente na Defensoria Pública, 2.200 mulheres foram atendidas. Ao todo, foram mais de 870 ações abertas e aproximadamente 490 audiências realizadas. “As vítimas chegam da Delegacia de Assistência à Mulher e passam pela Defensoria Pública, que pede a medida protetiva. Eu imediatamente defiro a medida, em casos de emergência. Aqui seguimos à risca a lei”, explica a juíza Márcia Lisboa.
Para atender as demandas extra-jurídicas das mulheres que procuram a Vara, o local dispõe de uma equipe multidisciplinar formada por cinco assistentes sociais e quatro psicólogas. “Nós fazemos aqui uma média diária de quinze atendimentos, sendo que as mulheres nos procuram por livre e espontânea vontade”, diz a assistente social Fernanda Mantelli. Para ela, o trabalho tem sido gratificante, porque tem percebido que a lei tem ganhado visibilidade. “As pessoas estão aceitando menos este tipo de violência, o que está sendo muito positivo. É muito importante para a gente ouvir das mulheres que elas estão conseguindo enfrentar as dificuldades que as têm acometido na vida”, assegura.
Quinta-Feira, 09 de Setembro de 2010