A importância da Criação Literária

Autores nacionais se destacam pelos cuidados na hora de desenvolver suas histórias

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Fotos: Divulgação

O motivo para algumas histórias terem sucesso com leitores e outras não, na maioria dos caso, é por causa da forma que foi desenvolvida.

Desde de 2015 a autora Giulia Moon, da série ‘Kaori’, se divide em escrever e ministrar aulas sobre a importância da criação literária. As aulas são em parceria com o autor Walter Tierno, de ‘Cira e o Velho’, ‘Anardeus’ e ‘Como Tatuagem’. Em um workshop chamado “Escrevivendo”, os autores passam aos alunos dicas e conhecimentos adquiridos na vivência como profissionais da área, já que ambos publicam de forma constante há mais de 10 anos e já foram editores, além de serem ilustradores e publicitários.

Giulia Moon em 2016 lançou a coletânea ‘Histórias Felinas’, de contos de gatos, escrita em parceria com Helena Gomes, e entre os vários projetos para 2017, que ilustrarão um clássico da literatura mundial, mas ainda é sigilo quanto ao nome da obra.

Responsável pelo conceito, logotipos e desenho dos personagens Lilica Ripilica e Tigor T. Tigre, Giulia Moon falou com exclusividade ao jornal O Estado RJ.

O Estado RJ: Você tem um estilo peculiar de escrever, que deixa seus textos com uma leitura tão prazerosa, que é difícil parar de ler, após iniciar. Como desenvolveu o estilo?
Giulia Moon: Em publicidade, atuei no início da carreira como diretora de arte, portanto, o meu trabalho era mais dirigido ao aspecto visual. Mas sempre observei com admiração as técnicas utilizadas pelos redatores publicitários, geralmente encarregados de dizer muito em pouquíssimo espaço. Depois, cheguei a trabalhar alguns anos como redatora, e essa experiência serviu como treinamento para que eu me familiarizasse e tomasse gosto por textos enxutos, sem desperdício de palavras, repetições e detalhes inúteis. O resto veio do instinto e da sensibilidade.

OERJ: Em relação a trama, como pegar uma ideia e a tornar uma história?
GM: As ideias surgem de qualquer lugar, de qualquer coisa, basta deixar a sua imaginação livre. Tanto pode vir de uma inspiração surgida numa música, ou na observação de algum acontecimento, ou até mesmo na necessidade de atender alguma solicitação, como a encomenda de um conto, de um livro de determinado estilo. O importante é manter um estado de espírito relaxado e tranquilo. E, quando surgir a ideia, começar imediatamente a escrever. Ou, se isso não for possível, anotá-la em algum lugar. Depois, deixe a trama surgir naturalmente. No início, não se preocupe com a gramática ou estilo, apenas registre a história. Por fim, trabalhe no acabamento: capriche no texto, na gramática e em tudo o que é necessário para a boa literatura. E, se nesse estágio se surgir alguma ideia melhor do que a original, mude tudo. Nunca tenha preguiça de mudar – mas só mude se for para melhor!

OERJ: Como surge um personagem?
GM: Depende. No início de carreira, eu me especializei em contos, e, neles, a trama era a parte mais importante. Eu sempre pensava primeiro na história, e os personagens surgiam naturalmente no decorrer do conto. Mas, quando escrevi Kaori, ela surgiu primeiro, já com a cara, os cabelos, até mesmo os gestos mais marcantes. Foi a primeira vez que uma personagem surgiu tão clara e completa na minha mente antes mesmo da primeira linha ser escrita. E olhe que Kaori surgiu num conto, Dragões Tatuados, e só depois ela virou uma série!Todos os demais personagens do universo de Kaori foram criados segundo as necessidades da trama. Mas Kaori, não. Ela nasceu sozinha, independente e livre, na minha cabeça. Era mesmo para ser uma personagem especial, não é?

OERJ:  Você também é desenhista, já ocorreu de um personagem surgir primeiro em desenho, para depois ser desenvolvido?
GM: Quando eu era adolescente, eu não escrevia as minhas histórias, eu as desenhava em forma de mangás. Naquela época, os meus personagens adquiriam vida primeiro em desenho. Mas, desde que comecei a escrever contos, sempre a imagem que faço dos personagens é de uma pessoa de carne e osso. Não é apenas uma imagem, um conjunto de traços de um desenho, é algo mais complexo, vívido e detalhado. Sinto a textura de pele, as nuances das cores de seus olhos, de seus cabelos. A sua voz. O seu perfume. Quando desenho Kaori, por exemplo, é como se eu desenhasse uma pessoa real, caracterizando-a no estilo mangá.

OERJ: Que dica pode dar aos aspirantes a autores sobre criação literária?
GM: Além daqueles conselhos básicos (que a maioria dos autores novos está careca de saber), como ler muito, aprimorar o português, procurar conhecer o que se produz na área, etc, acho que é fundamental ter uma postura profissional na hora de escrever. Isso significa ter a capacidade de transformar suas ideias num conto, numa novela, num livro de verdade. Porque qualquer um – um varredor de rua, um entregador de pizza, um motorista de táxi, um garoto ou um velhinho – pode gerar ideias, muitas vezes geniais. Mas, quem tem a capacidade de realizar essa ideia, tirá-la do mundo das possibilidades e torná-la real, palpável, são apenas os profissionais. Então, passar de um aspirante cheio de sonhos a alguém com capacidade de gerar um produto profissional significa um grande salto de qualidade, imprescindível para quem está disposto a entrar no mercado de forma séria.

Por

anny.lucard@oestadorj.com.br

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