Literatura para jovens leitores

A literatura que forma os amantes da leitura do futuro

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Um fenômeno atual no país são os projetos de incentivo à leitura, os quais abrem uma questão quanto a obrigação acadêmica não ser a mesma coisa que incentivar à leitura. Educadores sempre indicam livros acadêmicos aos jovens leitores e não entende o motivo de não gostarem de ler os indicados.
Ler um texto para prestar um concurso, é uma coisa, mas obrigar o jovem a ler livros que em geral não é maduro para ler, ou repletos de parábolas moralistas, pode causar problemas futuros, como total desprezo pela leitura.
A questão foi o foco do debate, mediado pela autora Ana Cristiana Rodrigues, sobre formação de jovens leitores, na Casa de Leitura no Rio de Janeiro, durante o lançamento do livro ‘O Estigma do Feiticeiro Negro’ (Editora Ornitorrinco), de literatura fantástica brasileira com foco no público jovem, escrito por Melanie Evarino e Miguel Carqueija.
Durante o debate, muito foi falado e tanto os autores que lançavam o livro, como os convidados Ana Lúcia Merege, autora de ‘O Castelo das Águias’, e Estevão Ribeiro escritor e desenhista destacaram alguns livros que a crítica costuma atacar. Livros com foco no público juvenil, de novos autores, que mesmo com os ataques são responsáveis por despertar o gosto pela leitura em muitos jovens, inclusive pelos clássicos.

Incentivar a nova literatura juvenil ou não incentivar, eis a questão?

No Rio de Janeiro há muitos projetos de incentivos à leitura acontecendo e vários deles envolvem autores brasileiros, que buscam escrever algo prazeroso de ser lido. Textos para os jovens leitores e também aos que não possuem o hábito de ler e querem algo diferente como forma de lazer.
Livros muitas vezes discriminados, que por ironia são os que aumentam o número de leitores a cada ano, graças ao prazer de ler que despertam. Textos odiados pela crítica e que na maioria são de literatura fantástica juvenil, como os livros da série ‘Crepúsculo’.
Também na lista de odiados pela crítica, os quadrinhos são mencionados por Estevão Ribeiro, que destaca a importância do primeiro estímulo. Criador das tiras ‘Os Passarinhos’, fala da importância também dos quadrinhos como forma de estimular o interesse pela leitura.
Sobre o ódio da crítica por livro que seguem o estilo de ‘Crepúsculo’, Ana Lúcia Merege comenta que é importante para o jovem leitor ter livros que falem a mesma língua, afirmação que os outros autores presentes concordaram:“dizer que o jovem brasileiro não lê, é absurdo. Jovens estão lendo e cada vez mais, mas não o que querem obrigá-los”, afirma.
Antes de obrigar os jovens a ler os clássicos brasileiros, é interessante uma busca entre os novos autores nacionais. Miguel Carqueija falou de algumas raridades publicadas e que hoje não estão disponíveis, como da lista de livros que ele deseja ler, pois há muita coisa nova interessante nas livrarias, tanto de autores brasileiros como de estrangeiros.
No entanto, falta divulgação adequada, enquanto os nacionais na maioria das vezes são ignorados pela crítica, os estrangeiros são atacados. Porque boa parte dos críticos parecem mais interessados em apontar defeitos na literatura estrangeira, muitos obviamente de caráter pessoal, que incentivar à leitura no país.

Novidades literárias para o público feminino geram críticas

Além dos títulos estrangeiros publicados a cada ano, novos livros nacionais são lançados também, mas só encontramos críticas que atacam livros estrangeiros, como a nova sensação literária, que apesar de ser um livro para o público feminino adulto, acabou por abrir um parêntese durante o debate.
Foi impossível o assunto não ser abordado, quando os livros de Stephenie Meyer foram mencionados, já que a autora E.L. James de ‘50 Tons de Cinza’ é fã declarada da criadora de ‘Crepúsculo’.
Não foi difícil perceber um “efeito Crepúsculo parte 2”, no caso E.L. James, pois assim como aconteceu com Meyer, os livros de James são atacados com fúria e o que seria apenas mais uma história, entre as escritas para o público feminino, é lido também por pura curiosidade por causa das agressivas críticas.
A autora Ana Cristiana Rodrigues que é mediadora de leitura, falo que leu os polêmicos livros de Meyer e James, e se gostou ou não, é uma questão pessoal, mas falou que quem tiver interesse nos livros,  deve ler.
A mais jovem do grupo presente, Melanie Evarino, de 20 anos, foi questionada sobre o que a motivou a ler e principalmente a escrever. A jovem autora não hesitou ao afirmar que foram os RPGs, uma tipo de livro/jogo que nem é visto como literatura aqui.
Pouco conhecido, o livro de RPG é discriminado por pura ignorância, já que a maioria nem se dá ao trabalho de saber do que se trata, associando os jogadores a cultos malignos e bobagens semelhantes.
No entanto, o livro de RPG são uma ótima forma de desenvolver a criatividade, incentivar à leitura e pode até despertar o talento para as artes cênicas.
Uma coisa ficou clara com o debate, é que está na hora de rever conceitos em relação a forma de incentivar à leitura no Brasil.
A época que os livros infanto-juvenis eram apenas didáticos já passou. Assim como o tempo em que as mulheres precisavam se esconder atrás de pseudônimos masculinos, reproduzindo o estilo dos mesmos de escrever, para terem seus textos respeitados.
Os livros juvenis não devem ser usados para doutrinar, como se fazia no passado. No entanto, é válido a ideia de passar conceitos que sejam inspiradores.
Estevão Ribeiro lembrou do lado extremista, que não aceita inclusão de valores nos textos para os jovens. Porém os presentes concordaram, que valores universais são válidos, mas os “livros infanto-juvenis como forma de doutrinação são perigosos, pois os escritores seguem filosofia de vida diferente.”
O respeito pela literatura e pelo leitor deve existir como um todo, não por um determinado tipo de texto e leitor. Autoras criaram o estilo chick, onde muitos dos textos são escritos para o público feminino adolescente e não faz sentido críticos atacarem livros do tipo com piadas e comentários machistas.
A literatura já foi um terreno só de homens, onde apenas o universo masculino era retratado. Hoje, com a inclusão das autoras não deve existir discriminação aos textos que descrevem o universo feminino.
É hora de começar a respeitar o novo, para o antigo ser preservado. Ninguém ganha com o incentivo ao ódio pela nova literatura ou desprezo pela antiga.

Por

anny.lucard@oestadorj.com.br

1 comentário

  1. Miguel Carqueija

    Realmente, Anny, eu penso que existem diversos autores que deveriam ter alguma preferencia nas escolas como leituras indicadas, citaria Thales Andrade, Paulo Setúbal (autor de interessantíssimos romances históricos, como “As maluquices do Imperador”), Francisco Marins e João Batista Melo. São muito mais adequados ao público infanto-juvenil que romances sociais de leitura difícil, como “Vidas secas”, por mais meritórios que estes últimossejam. O problema é que alguns desses autores infanto-juvenis (excessão feita de Malba Tahan) são difíceis de achar, Thales Andrade p.ex. que já foi muito importante há muitos anos não é sequer editado.
    Grato por seus comentários.