A guerreira que abriu caminho para as mulheres brasileiras nos livros de História

Em pleno do século 19, Anita escolheu não ter filhos ao ser casar pela primeira vez, se separou do marido para se juntar às tropas dos Farrapos e se tornou, com seu companheiro Giuseppe Garibaldi

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Anita Garibaldi, cuja morte completa 195 anos nesta semana, foi uma das poucas mulheres a conseguir despontar em um universo majoritariamente masculino: as páginas dos livros didáticos sobre a história brasileira.

Um dos motivos, apontam pesquisadores, é o fato de sua trajetória fugir – e muito – do esperado para as mulheres de sua época.

Em pleno do século 19, Anita escolheu não ter filhos ao ser casar pela primeira vez, se separou do marido para se juntar às tropas dos Farrapos e se tornou, com seu companheiro Giuseppe Garibaldi, uma heroína revolucionária não só no país, mas também na Itália.

“Além de atuar na Revolução Farroupilha, no sul do Brasil, e em lutas no Uruguai, Anita também teve importante atuação nas guerras da unificação italiana junto a Garibaldi, que foi reconhecido como o maior herói daquele país”, conta Cristina Scheibe Wolff, historiadora da Universidade Federal de Santa Catarina.

“Ela se destacou em um campo que não era visto como possível para as mulheres: a guerra revolucionária.”

Segundo a pesquisadora, uma das autoras do livro Nova História das Mulheres no Brasil (Editora Contexto), o país teve diversas personagens importantes como Anita Garibaldi, mas que acabaram não tendo a mesma “sorte” dela.

O fato de a revolucionária ter sido uma exceção, aponta, é obra de um homem: o próprio marido, que sempre a incluiu em suas memórias.

“O que sabemos sobre Anita veio principalmente das memórias do Garibaldi, que demonstrava uma grande admiração por ela. De certa forma, a fama de Anita é decorrente da vida longa de Garibaldi, que ainda em vida foi reconhecido como herói e fez questão de dividir esse lugar com a memória da mulher.”

As mulheres e os livros escolares

Segundo a pesquisadora, a ausência de mais personagens como Anita nos livros escolares brasileiros se deve à demora destes em incorporar estudos mais recentes.

“É somente a partir dos anos 1980 e, com mais força nos anos 2000, que temos uma produção mais significativa sobre a história das mulheres. Infelizmente, essa produção muitas vezes se dá de forma um pouco distanciada, como uma história a parte, nem sempre reconhecida por todas as correntes historiográficas.”

Para ela, a ação de setores conservadores também tem parcela da culpa. “Recentemente, a bancada conservadora da Câmara de Deputados e setores ligados a igrejas forçaram a retirada do termo ‘gênero’ dos planos nacional, estaduais e municipais de educação”, exemplifica.

“Acontece que a história das mulheres na escola é importantíssima para que meninos e meninas percebam a importância da igualdade de gênero, desfaçam preconceitos e vivam de forma mais igualitária suas relações sociais com respeito à diversidade.”

Entre as mulheres guerreiras “esquecidas” pela História do Brasil, Cristina cita as indígenas – “quem sabe até as Amazonas descritas por Carvajal”, em referência as lendárias guerreiras nativas relatadas por jesuíta no século 16 -, Dandara e outras negras que lutaram contra a escravidão e as participantes da Guerra da Independência, como a militar Maria Quitéria.

Além disso, lembra as cangaceiras, as enfermeiras das Força Expedicionária Brasileira na Segunda Guerra Mundial e as guerrilheiras que lutaram contra a ditadura militar.

Heroína de dois mundos

Ana Maria de Jesus Ribeiro, nasceu em 30 de agosto de 1821 em Laguna, em Santa Catarina – foi a terceira de uma família humilde de dez filhos.

Aos 14 anos, foi obrigada pela mãe a se casar com um sapateiro muito mais velho. Segundo outra versão, o casamento ocorreu porque a menina havia sido violentada.

Ainda adolescente, adotou costumes considerados avançados para as mulheres da época: se recusou a ter filhos, cavalgava e se interessava pela política do Brasil Império.

Em 1838, os rebeldes da Revolução Farroupilha (1835-1845) chegaram à cidade. E aos 18 anos, Anita fugiu de casa com as tropas comandadas pelo italiano Giuseppe Garibaldi.

Com o revolucionário, aprendeu manejar espadas e armas de fogo. Casaram-se em 1842 e tiveram quatro filhos, mas nunca viveram como uma família tradicional; mesmo grávida, ela não deixou de participar das batalhas que a fizeram entrar para a história.

Em 1846, ela se mudou para a Itália. Com a proclamação da República Romana, em 1848, Garibaldi se envolveu na luta pela unificação italiana e ela, grávida do último filho do casal, lutou ao lado do marido. Para integrar as tropas, cortou os cabelos e se vestiu como homem.

Acabou morrendo pouco tempo depois, em 4 de agosto de 1849, durante uma fuga das tropas. Tinha apenas 28 anos.

Ela entrou para os livros de História como a “heroína de dois mundos”. Em 1931, o governo italiano reconheceu sua importância e enterrou seus restos mortais em Roma, em um monumento construído em sua homenagem na colina de Gianicolo. No Brasil, além da presença nos livros escolares, Anita Garibaldi tem um museu dedicado à sua memória em Laguna, além de dar nome a duas cidades de Santa Catarina.

Primeira feminista?

Para Cristina, Anita é importante para os movimentos pró-mulheres no Brasil. “É um exemplo conhecido de uma mulher que saiu de um casamento violento e não satisfatório para uma relação de companheirismo amoroso e ideológico”, afirma.

Ela avalia, porém, ser anacrônico dizer que ela era feminista.

“Anita Garibaldi viveu no início do século 19, quando ainda não se falava em feminismo, uma noção desconhecida naquela época”, explica, ao citar a o início da luta de mulheres de vários países pelo voto e pela educação, no fim do mesmo século, como o estopim do movimento.

“Mas certamente era uma mulher que não se conformava com os estereótipos e lugares designados às mulheres de seu tempo – e mesmo do nosso tempo.”

*Informações da BBC

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