A febre dos remakes no cinema

Com mais decepções que acertos novas narrativas começam a afastar público dos cinemas

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Foto: Divulgação

Com cada vez menos filmes de roteiros originais, Hollywood iniciou uma febre de remakes, que  cada vez mais vem decepcionando por suas narrativas, desanimando os fãs e afastando o público em geral que já evitam ver os lançamentos de certos títulos.

Junto com os remakes os rebbots são a alternativa mais usada na busca de novidades, já que pegam o original para um remake e com a proposta de ser um reboot, ou seja, recontar a história de alguns personagens de forma a buscar originalidade.

O autor de ‘Irmãs de Sangue – Um conto vampírico’ Ricky Nobre, crítico formado em Comunicação Social faz parte da Editora Linhas Tortas e falou um pouco sobre adaptações e remakes em entrevista.

O Estado RJ: Filmes antigos sempre são alvo de refilmagem com a desculpa de atualização tecnológica. Acha a ideia válida ou alguns são tão bons que um remake é desnecessário?
Ricky Nobre: Acho que a questão tecnológica é uma mera desculpa. Creio que a febre de remakes que anda assolando Hollywood nos últimos anos não se deve tanto a uma possível escassez de ideias quanto de uma certa covardia da indústria em arriscar coisas novas e mais originais. Com isso, eles apelam à resistência dos jovens em assistir filmes antigos e oferecem, teoricamente, a mesma coisa numa embalagem atualizada, com uma estética mais contemporânea. Só que não é a mesma coisa. Muito se dilui e se perde na tradução.

OERJ: Qual a sua definição para um remake bem feito?
RN: Talvez um remake bem feito seja apenas um bom filme, algo que, assistido isoladamente, por seus próprios méritos, cative, fascine e emocione. O que é algo complicado, porque para aqueles que tem um interesse maior por cinema, as comparações são inevitáveis. Nesse ponto, o dilema é parecido com as intermináveis discussões sobre as adaptações de livros para cinema.

OERJ: Há remakes onde um roteiro é alterado e ganha uma nova versão. Isso deve ser regra ou depende do tipo de filme?
RN: Fazer um remake sem nenhuma alteração de conteúdo, acho que é melhor nem fazer, porque fica sem sentido. Fica naquela questão puramente estética de que falei antes. Por outro lado, mudanças que alteram a base, o coração da história, pode até se tornar uma ofensa à obra original. Então creio que o importante é manter a essência da história, adaptando o necessário, seja a uma época diferente, seja nas exigências novas de linguagem cinematográfica. Um dos remakes mais absurdos e inúteis que já vi foi justamente o que me deu uma das melhores experiências que já tive numa sala de cinema, que foi a versão do Gus Van Sant de 1998 para Psicose de Hitchcock, que é de 1960. A ideia era de um remake que fosse idêntico plano a plano, diálogo por diálogo, que fosse capaz de trazer essa obra clássica para um público jovem que não vê filme antigo em preto e branco. E é muito curioso como as únicas mudanças mínimas que o Van Sant fez no filme forma realmente horríveis!

OERJ: Algumas boas histórias, como as peças de Shakespeare, já ganharam vários adaptações, mas quando o caso é remake de um bom roteiro, o resultado é geralmente inferior. Tem ideia do(s) motivo(s)?
RN: É curiosa essa pergunta, porque a gente lembra que remake não é uma coisa nova, principalmente quando falamos de adaptações de livros ou peças. Of Human Bondage teve três versões, em 1934, 1946 e 1964. E Ben-Hur teve uma superprodução em 1925, mas a versão icônica é a de 1959. Creio que obras literárias, pelo espaço que têm para desenvolver e pela própria natureza da literatura, é sempre um desafio de adaptação, então sempre terá alguém para se arriscar em adaptar determinado livro de uma forma melhor do que foi feita antes. Já em roteiros originais, se eles são bem sucedidos o suficiente para inspirarem um remake, eles já são bons o suficiente para não precisarem dele. É quase um paradoxo!

Por

anny.lucard@oestadorj.com.br

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