Polêmicas do mundo do samba

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Esta semana uma polêmica tomou conta do mundo do samba. Uma passista da Unidos da Tijuca postou nas redes sociais uma foto de biquíni enrolada na bandeira da escola. A repercussão foi tanta, com críticas das mais diversas, que o presidente da agremiação afastou a componente. A segunda porta-bandeira, que era a responsável pela guarda do pavilhão, alegou que precisou ir ao banheiro e pediu à passista que tomasse conta da bandeira, e que se estivesse presente no momento não permitiria tal situação.

Toda esta polêmica nos remete às duas últimas colunas em que comentei sobre a arte do mestre-sala e as baterias das escolas de samba que, embora atualmente  sejam quesitos de julgamento, têm por trás toda uma tradição que remete às origens dessas entidades. A bandeira é um símbolo sagrado de uma agremiação e é uma referência aos estandartes dos tempos dos concumbis, ranchos e cordões, ainda no final do século XIX e início do século XX, quando se organizaram essas primeiras entidades carnavalescas que deram origem às escolas de samba.

Por isso se colocava o mestre-sala como guardião da porta-estandarte, para que nenhum adversário causasse danos ao pavilhão, por ser  grande humilhação sofrida, uma ofensa. É bom lembrar que estas primeiras entidades lutavam por legitimidade social e demandavam apresentar organização e disciplina. Por serem compostas majoritariamente por negros, sofriam muito preconceito e perseguição policial, além da rivalidade de outros grupos. Daí o mestre-sala normalmente ser escolhido entre capoeiristas e os valentões da comunidade. Com o passar do tempo, foi incorporada toda uma cênica de dança e coreografia, mas aí já na fase de concurso dos desfiles, após os anos de 1930.

A passista, que sofreu agressões virtuais, ofensas injustificáveis e excessivas, agiu de maneira ingênua e talvez não conheça essa história nem todo o simbolismo representado pela bandeira. Aliás, atualmente grande parte  dos componentes das escolas não conhecem sua própria origem. As agremiações, por outro lado não se importam em preservar a história e repassar essas tradições aos mais jovens. Na maioria das vezes, ficam circunscritas à Velha Guarda e aos componentes mais antigos. Estão esquecendo o verdadeiro papel original da escola de samba.

 

Por

amilton.cordeiro@oestadorj.com.br

Jornalista, pesquisador de samba e compositor.

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