Preconceito regional: causas e soluções


Após ser sensibilizado pela experiência preconceituosa vivida pela arte educadora Andréia Fontoura, relatada em depoimento para esta coluna, o engenheiro eletricista André Brandão, vem nos falar sobre as causas e soluções para o preconceito regional, propondo uma  nova discussão, em forma de lei, com o intuito de reduzir a desigualdade entre as regiões do país.

“Meu nome é André Brandão, sou engenheiro eletricista, com pós-graduação na Inglaterra, falo inglês e alemão e fui CONVIDADO por uma empresa para morar no Rio de Janeiro e resolver problemas na área de petróleo. Sou baiano, de Salvador. Ao lerem meu currículo, viram que de um certo modo, sou conceituado. Porém, quando olham para meu rosto moreno, mesmo convidado profissionalmente, sou vítima de preconceitos.
Ao fazer um curso na ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas) em São Paulo, que só tem na cidade do RJ e SP, às vezes, em Curitiba e Porto Alegre,  o professor de lá me ofendia verbalmente. Eu, um professor da ABNT, só porque disse que vinha da Bahia.

Sabe por que o preconceito acontece? Dois motivos:
1. Aparência não holywoodiana – Todas as propagandas mostram e ditam, no subconsciente, o que é ser “bonito”. Então, o nordeste, por sua grande maioria, não se sente incluído nisso, nem em filmes, nem em propagandas de pasta de dente…se sentem excluídos. E, por sua vez, sudestinos e sulistas, estando no padrão, acham uma “contaminação visual” a aparência dos nordestinos.
2. “Nordestinos são causadores de favelas”.

Li um livro interessante chamado “Formação Econômica do Brasil”. Gosto de Economia. Tem uma solução para isso. Não é separatismo nem briga, mas uma gradativa conscientização da origem da pobreza num lugar e da riqueza no outro.

Só passa na TV “de volta para minha terra” mas não passa o “de volta para minha fábrica”. Exemplo: as indústrias operam por meio de dispositivos eletro-eletrônicos e comandos de sistemas de potência, automação e controle, muitos deles fabricados pela Schnider Electric que é de tecnologia alemã. Eles têm 5 fábricas no Brasil , sendo 4 em São Paulo. Outro ponto a analisar é o ICMS. O Nordeste só foi ter fábrica de carros no início dos anos 2000. Salvador tem mais de 600 milhões de carros. Quando um soteropolitano compra um carro de 30 mil reais, 11% deste valor é paga como ICMS. Quem arrecada isso, mais de 3 mil reais, é o governo de São Paulo. Consumidor de outro estado gera dividendos para o governo do estado produtor.

Uma solução para tudo isso? Uma lei que se intitule “IMPORTAÇÃO ZERO, IMIGRAÇÃO ZERO”. Isso teria um impacto de responsabilidade pessoal em cada um. Faria com que os do sul quisessem mais indústrias no norte e no nordeste. Explicaria o porquê de ainda que não sejam bem-vindos, os nordestinos continuem imigrando. O motivo pelo qual para um pai que quer sustentar sua família, fique mais fácil encarar o desprezo étnico e regional do que um filho que peça comida e não tenha.

Poderia-se embasar a tal lei, na Constituição Federal que prevê o seguinte: CF SEÇÃO 4 ARTIGO 43
Art. 43. Para efeitos administrativos, a União poderá articular sua ação em um mesmo complexo geoeconômico e social, visando a seu desenvolvimento e à REDUÇÃO DAS DESIGUALDADES REGIONAIS.

§ 1º – Lei complementar disporá sobre:

I – as condições para integração de regiões em desenvolvimento;

II – a composição dos organismos regionais que executarão, na forma da lei, os planos regionais, integrantes dos planos nacionais de desenvolvimento econômico e social, aprovados juntamente com estes.

§ 2º – Os incentivos regionais compreenderão, além de outros, na forma da lei:

I – igualdade de tarifas, fretes, seguros e outros itens de custos e preços de responsabilidade do Poder Público;

II – juros favorecidos para financiamento de atividades prioritárias;

III – isenções, reduções ou diferimento temporário de tributos federais devidos por pessoas físicas ou jurídicas;

IV – prioridade para o aproveitamento econômico e social dos rios e das massas de água represadas ou represáveis nas regiões de baixa renda, sujeitas a secas periódicas.

§ 3º – Nas áreas a que se refere o § 2º, IV, a União incentivará a recuperação de terras áridas e cooperará com os pequenos e médios proprietários rurais para o estabelecimento, em suas glebas, de fontes de água e de pequena irrigação

Qual o impacto de tudo isso? É só imaginar que o nordeste é um país. Não tem alfândega para produtos vindos do sul e do sudeste, então, a entrada livre causa destruição da própria produção. Esse é um dos modelos de desenvolvimento econômico – substituição de importação. O Japão fez isso e os Estados Unidos, no começo, também. Eles proibiram a importação de tecidos da Inglaterra. As pessoas começaram a fazer, rusticamente, sua própria roupa. Com o tempo, surgiram as primeiras fábricas. Isso foi no século 17.  Se o Brasil não adotasse nenhuma medida protecionista e os produtos chineses entrassem aqui livremente o que aconteceria com as indústrias de São Paulo? Fechariam! Desemprego em massa! É o que acontece com o nordeste: 60 a 70% do poder de consumo do povo é revertido em compras de produtos vindos do sul e sudeste. E o que acontece com um lugar que não produz e só compra? Pobreza! Isso começou na década de 30, mais tenazmente, mais intensamente, com a política  do “café com leite”, quando já começaram a se preocupar com apenas uma região e as outras, relegadas. Isso, com o tempo, só fez com que as discrepâncias aumentassem e, como acontece com a “água do ladrão” que jorra quando não aguenta mais o tanque, “jorrou” imigração a partir da década de 60 e 70 como resultado de uma política macroeconômica nacional desequilibrada. Aí criaram-se os estereótipos: pardo é menos qualificado.”

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