Estrelas além do tempo

Print page

Em tempos cada vez menos intolerantes, nada como um filme sobre mulheres negras e poderosas sambando na cara do patriarcado.

Estrelas além do tempo tira do ostracismo a história de luta de três mulheres (Katherine G. Johnson, Dorothy Vaughan e Mary Jackson) que ousaram não se acomodar nos bancos de trás dos ônibus e tampouco se calar diante da segregação racial institucionalizada. Mas afinal, o filme fala sobre…?

Num dos muitos episódios que marcaram os anos de Guerra Fria, a disputa intensa entre EUA e União Soviética pela “conquista do espaço”, talvez tenha sido um dos mais emblemáticos. O filme aborda, por um lado, o pânico americano frente à “ameaça comunista” e, por outro, todas as dificuldades pra quem nasceu mulher e negra, numa época em que as tensões sociais e raciais andavam extremamente tensas e acirradas.

No entanto, o cenário proposto corresponde às dependências da Nasa, a qual contratava pessoas com a função de “computadores”. Em outras palavras, matemáticas brilhantes, responsáveis pelo cálculo e processamento de dados relacionados ao programa espacial americano. E é neste contexto que Katherine, Dorothy e Mary entram. Acompanhamos então as vitórias e percalços em suas vidas, tanto no ambiente profissional como na relação com a sociedade na qual estão inseridas.

Naturalmente que o filme vem feito com ganchos para que o público simpatize, com esforço quase zero, com as personagens. E isso é algo que ainda me incomoda um pouco. Dá uma sensação de “paternalismo” em relação às histórias, sendo que não vejo razão alguma para isso, uma vez que estas se bastam.

O filme nos apresenta mulheres fortes, corajosas e batalhadoras. No entanto, ao pintá-las quase beirando a perfeição, envereda por tons muito suaves e meio destoantes do tema e figuras históricas retratadas. Em outras palavras, ao tentar criar uma ponte de identificação e forte empatia entre espectadores e personagens, o filme acaba por afastá-las do mundo real.

Sim, o filme é BASEADO em fatos reais. Porém, o incômodo não veio pela proximidade ou distância entre o contado e o que realmente ocorreu. Mas sim, da falta de riscos assumidos pela obra, que preferiu garantir visibilidade ao manter-se em determinadas zonas de conforto e sem muito polemizar. Perdeu, portanto, uma ótima oportunidade de elaborar uma narrativa mais sólida e bem construída, visto que as barbáries da época retratada, assombram sim os dias de hoje.

“Estrelas além do tempo” é um filme bom, mas longe de ser brilhante. Por outro lado, mantendo-se comercial, consegue entrar no radar de um público eclético, capturando diferentes olhares sobre a vida de mulheres incríveis e não fictícias, bem como situações históricas importantes. E, como disse no início, em tempos sombrios como este, nada como um exercício audiovisual pra nos fazer lembrar que liberdade, respeito e igualdade são elementos belos, mas muito, muito frágeis.

Por

carol.kzan@oestadorj.com.br

Carol Kzan é pós-graduada em Animação e Modelagem 3D e atua, há alguns anos, no mercado audiovisual, como editora e videografista. Pra desanuviar, ilustra, come pipoca, toca violão e, ocasionalmente, vê o mesmo filme várias vezes.

Comentários estão fechados.